Foi anunciado pela DC Comics na New York Comic Con algo que eu temia e não temia: a volta do Capitão Marvel. Não temia porque era inevitável. E eu continuo temendo porque fico com medo do que eles farão com o personagem nesse relaunch. As razões? Segue abaixo…
O CERNE DO PERSONAGEM E SEU PROBLEMA ESTRATÉGICO

Imagine-se quando criança. Você está entre 8 e 12 anos. E você pode, através de uma palavra mágica, ser um super-herói. Isso mesmo, basta falar uma palavra e você tem poderes.
Esse é o apelo mágico (com o perdão do trocadilho) que o personagem tem. Nenhum super-herói tem um apelo tão forte (nem o Homem-Aranha) quanto o Capitão Marvel. O Homem-Aranha fala do adolescente. O Capitão Marvel fala para aqueles cuja imaginação pode ir mais longe, que agem de maneira mais inusitada e divertida diante da vida: as crianças. Lembrando que as HQs originalmente eram um produto voltado para as crianças e o mote torna-se ainda mais poderoso.
Como “adulto”, na persona do Capitão Marvel, o jovem Billy Batson enfrenta ameaças que concernem aos adultos. Tem que lidar com os problemas dos adultos. Todo mundo lembra do Aranha como o “eterno adolescente loser que ganha a chance de virar o jogo ao ganhar poderes”. Mas o Capitão Marvel é o dono original da ideia. Se analisarmos profundamente, o Capitão Marvel e o Homem-Aranha são o mesmo personagem. Falam sobre o mesmo assunto, tem o mesmo apelo em sua questão principal.

Quando surgiu, de forma inescrupulosa (ao menos, eu acho), a DC entrou com uma ação judicial contra a Fawcett Comics, editora original do personagem, alegando que Capitão Marvel era uma cópia descarada do Superman. Não vou entrar em detalhes, pois não é o foco da discussão. Qualquer pesquisa no Google e você encontrará diversos textos sobre o assunto, ajudando-o a tirar sua conclusão.
Mas o motivo real (aparentemente, já que a DC nunca irá admitir isso) de tal ação judicial era que o Superman era o campeão supremo de vendas. Quando o Capitão Marvel surgiu, foi o único personagem que não só era capaz de enfrentar o Superman em vendas, mas o superou de longe. E tudo isso devido ao apelo mostrado no início deste texto.
Se o personagem tem um apelo tão forte, porque ele não é tão bem aproveitado? Porque um personagem que tem o mesmo apelo e veio muito depois continua muito mais firme e forte?
DECISÕES EDITORIAIS MAIS FORTES QUE A MAGIA
Depois de ganhar a ação contra a Fawcett, a DC ficou com os direitos autorais do personagem. Então, para acabar com a concorrência a seu principal herói, a DC não o publicou durante as décadas de 60 e 70, salvando raríssimas (mesmo!) excessões. E mesmo nessas raríssimas excessões, quando publicado, a DC aproveitada da característica da criança no corpo de adulto e o fazia um personagem bobo e sem graça. Um verdadeiro paspalho (salve Dr. Silvana!). Claro que ninguém ia gostar. A ideia é que acontecesse isso mesmo.

Publicação Original da Fawcett Comics
E essa política continua até hoje. Na década de 80 e parte da década de 90, o personagem só era usado em histórias com outros heróis, principalmente na clássica Liga da Justiça humorística, de Keith Giffen, J.M. DeMatteis e Kevin Maguire. Embora legal devido a seu foco, o fato da Liga ser humorística não ajudou o personagem.
Depois de Crise nas Infinitas Terras, assim como aconteceu com Superman, Batman e todo o resto, a DC aproveitou e tentou pela primeira vez tratar o personagem com o devido respeito. O então conceituado roteirista Roy Thomas, mais conhecido por seus trabalhos na rival Marvel foi o responsável por Shazam! A New Beggining, a reformulação do personagem. Essa tentativa deu com os burros n’água e foi tão errada nos EUA que aqui nem chegou a ser publicada, sendo totalmente ignorada pela Editora Abril, então casa da DC no Brasil. Esse vácuo de histórias prejudicaria muito os leitores brasileiros anos depois, pois para nós trata-se de um enigma completo. Eu mesmo, como grande admirador do personagem quase nada sei sobre essa fase.
No meio da década de 90 a DC decide tentar pela segunda vez a levar o Capitão Marvel a sério e cria a revista mensal Power of Shazam!, recontando a origem do personagem e tentando atualizá-lo com uma abordagem diferente daquela criada por Thomas. Por melhor que fosse a intenção e as qualidades do artista responsável, o sempre bom e clássico Jerry Ordway, a tentativa naufragou novamente. E não dá para analisar muito o caso porque a série ganhou revista própria no Brasil, mas foi cancelada em uma numeração muito antes de alcançar o último número gringo, deixando os leitores brasileiros sem saber de muita coisa que aconteceu com ele. Não dá para saber se Ordway não soube trabalhar bem o personagem, se soube ou não lidar com suas características ou se os leitores mesmo não sentiam empatia pelo personagem. Ou qualquer outra razão. Isso é algo que apenas os leitores e quadrinhistas americanos podem dizer. Só podemos, infelizmente, chutar.

SHAZAM! The New Beginning
Desde o cancelamento de Power of Shazam! que o personagem só é tratado com um certo respeito em edições especiais ou minisséries, geralmente com outros heróis, como é o caso de O Reino do Amanhã ou O Primeiro Trovão. Até houve tentativa de levá-lo a revistas mensais ao torná-lo parte da Sociedade da Justiça, mas como tem que dividir a atenção com dezenas de outros personagens, fica difícil desenvolvê-lo e vendê-lo aos leitores.
CARACTERÍSTICAS DO PERSONAGEM E PISTAS DO APELO ATUAL
E um dos meus chutes tem a ver com algumas das características do personagem. Comecemos pela palavra mágica. “Shazam” é a junção das iniciais de personagens mitológicos e lendários que dão poder ao personagem através do mago de mesmo nome. Billy então ganha a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a coragem de Aquiles, o poder de Zeus, a resistência da Atlas e a velocidade de Mercúrio.
Analisando friamente, há um problema aí. São todos deuses da mitologia grega, com excessão de Salomão, que foi um rei de Israel e personagem bíblico. Junte o fato de que o mago Shazam tem raízes na mitologia egípcia e a confusão está formada. Em pouquíssimas tentativas bem intencionadas mas ridículas de explicar o que uma mitologia tem a ver com a outra ou de fazer uma ligação correta dos fatos, só aconteceram cagadas que prejudicaram o personagem e seu apelo ao leitor. Seu universo foi se tornando, aos poucos, confuso demais.
Para piorar, seus inimigos são sempre baseados em ciência. O Dr. Silvana é um cientista louco. O Capitão Nazista é um supersoldado de Hitler. O Sr. Cérebro é uma centopéia de 3 centimetros do planeta Vênus. O único mesmo que tem um apelo mágico é o Adão Negro. Houve uma tentativa de trazer inimigos mágicos para ele, como Sabac, por exemplo, mas ficou nisso. De resto, os inimigos do Capitão Marvel são piores do que os inimigos classe Z do Homem-Aranha ou do Batman. E na maioria das vezes, ligados à ciência. Com uma galeria de vilões tão problemática, não é surpresa que isso não ajude.

Dr. Silvana: O "Lex Luthor" da mitologia do Capitão Marvel
Adicionando mais problema à equação, tirando o mago Shazam, Capitão Marvel Jr e Mary Marvel, o elenco de personagens coadjuvantes é praticamente inexistente. Coloque personagem, tire personagem, seja ela clássico ou novo, nenhum coadjuvante parece ajudar a recuperar o encanto do Capitão Marvel.
Em suma, de legal atualmente, o personagem só tem ele em si. As explicações de sua mitologia (ou mitologias) só confundem e sua galeria de vilões é patética, além de coadjuvantes nulos.
A DC tentou mais uma vez, com Judd Winick, atualizar o personagem através da minissérie Os Desafios de Shazam. Só que no final da história, a única alteração de fato é que agora o portador do poder é Freddy Freeman e não mais Billy Batson, que está na Pedra da Eternidade, no lugar do mago Shazam, que morreu em um grande evento DC. De resto, continua a mesma coisa. Ou seja, falhou completamente em atualizar o personagem, deixou de trabalhar o resto de seu universo, focando exclusivamente no personagem principal.
Com os recentes eventos da minissérie Flahspoint, responsável por fazer um relançamento (afinal, a DC insiste que não é um reboot) de seu universo através dessa história do Flash, a DC tem um novo início e seu presidente, Dan Didio, já declarou na San Diego ComicCon que o personagem será novamente retrabalhado na segunda leva de títulos da iniciativa. Só nos resta rezar para que dê certo. Nenhuma detalhe foi divulgado, nem mesmo equipe criativa.

Adão Negro por Alex Ross
REFLEXÕES PARA ATUALIZAÇÃO: CONSTRUÇÃO DE BILLY BATSON
Como leitor – e exercendo um pouco da minha profissão, que é a de roteirista – só posso falar aqui como eu faria para atualizar o personagem.
Vamos pegar o básico: Billy Batson é uma criança órfã, criado pelo tio inescrupuloso, Ebenezer Batson, que acaba ganhando poderes através de uma palavra mágica. Em outros termos, vemos que o Capitão Marvel tem o potencial de ser para os quadrinhos o que Harry Potter foi para a literatura, infanto-juvenil ou não. Para lembrar que o personagem é ainda mais parecido com o bruxinho inglês, Billy é rico, pois seus pais tinham uma fortuna, que é administrada pelo Ebenezer, já que Billy é menor de idade. E parece que os roteiristas atuais esqueceram disso.
Eu começaria com Billy tendo 12 anos, vivendo com seu tio, que o trata muito mal. Ebenezer, por natureza, não é uma boa pessoa e se aproveita de que Billy é o herdeiro da fortuna e é seu parente mais próximo para sugar o menino. Como criança, Billy não tem noção disso, pois não sabe como os trâmites legais funcionam. Como criança que é, ele sente apenas que perdeu seus pais e que agora tem que aguentar um tio malvado. Billy não sabe que é rico. Apenas acha que sua família tem dinheiro – seja na figura dos pais ou do tio – e que quem os controla, naturalmente, são os adultos e ele nada pode fazer. O fato de viver em isolamento devido às malvadezas de Ebenezer e às diferença sociais com 90% das outras crianças o fazem ser muito solitário e triste.
Devido a essa tristeza, Ebenezer vê que Billy conversa com seu tigre de pelúcia, último presente de seus pais. Ambos são uma espécie de Calvin e Haroldo, o que também seria uma senhora homenagem a essa tira clássica.
Porém, Ebenezer tem uma companheira tão maligna quanto ele e o alerta de que quando chegar uma certa idade, Billy terá os direitos de sua fortuna, podendo dar o troco. Billy precisa morrer. Os dois tentam matar Billy, que escapa com a ajuda de seu “amigo imaginário”, o tigre. Para Ebenezer e sua companheira, Billy teve apenas sorte.
O tigre o guia pelas ruas de Fawcett city até uma estação de metrô. Lá, pega um trem que o leva para uma outra dimensão conhecida como Teogon, que nada mais é do que a dimensão natal dos deuses gregos e morada deles e de outros seres dessa mitologia. Lá, o tigre o leva para um local conhecido como Pedra da Eternidade, morada do mago Shazam. Este mago foi um ser criado como avatar dos deuses gregos. Ele é a representação física desses deuses, agindo no mundo mortal desde que Zeus, arrependido de suas ações na Terra, proibiu qualquer deus de agir diretamente com os mortais.

O Mago Shazam
Na Pedra da Eternidade, Billy conhece Shazam, que diz que o tigre nada mais era do que o mago agindo através do bicho de pelúcia para salvar Billy. Vendo que Billy ficara triste com isso – pois o menino pensava que se tratava mesmo de um amigo de verdade – Shazam decide dar vida ao tigre. Revelada apenas muito mais tarde, a razão de Shazam fazer isso não é fazer o menino feliz e sim ter um guia para Billy não ficar desamparado agora que seu tio o caça.
Shazam revela então que de tempos em tempos escolhe um mortal para ser o herói que o mundo precisa em tempos sombrios e que atualmente o mundo precisa desse herói. Shazam vê em Billy tudo que é necessário para que esse herói se torne realidade e dá os poderes a Billy, tranformando-o no Capitão Marvel. Como Marvel, Billy tem a sabedoria de Salomão para guiá-lo. Como Billy, o tigre está lá para fazer esse papel, pois Billy é muito vulnerável, pois não tem a resistência de sua contraparte.
A razão primordial é que esses “tempos sombrios” mencionados por Shazam são, na atualidade, uma reviravolta na magia. O Capitão Marvel seria então, o maior defensor da Terra contra as ameaças mágicas. A função do Capitão Marvel é lutar contra demônios, seres místicos malignos, entidades sobrenaturais rancorosas e todo o tipo de ameaça arcana. Em suma, Shazam criou a persona do Capitão Marvel para ser a maior ameaça física contra os seres que ameaçam o mundo material.
Billy seria então responsável por manter o mundo físico do jeito que está e não ser engolido por disputas de entidades de poder incalculável. Billy então aproveita seus poderes para conseguir provas de que Ebenezer o está ameaçando. Seu tio vai preso, assim como sua companheira e a justiça designa um tutor para o menino até que ele tenha a idade necessária para administrar a fortuna.
CONSEQUÊNCIAS DESSA NOVA ORIGEM
Billy tem que lidar com responsabilidades e é só um menino de 12 anos. Ele tem que enfrentar as ameaças místicas e, com a ajuda do tutor, saber o que fazer com seu dinheiro.
As possibilidades do tutor são infinitas, pois pode ser decidido tanto o tutor saber a verdade sobre Billy e ajudá-lo quanto criar tensão ao fazer Billy ter que esconder a verdade ao mesmo tempo que tenta lidar com sua fortuna e seu dia-a-dia como protetor secreto da humanidade contra ameaças místicas.

Marvel e o tigre Tawky Tawny, sérios problemas com personagens mesmo!
Em adição, essa função de protetor místico da humanidade dá ao personagem uma função dentro do Universo DC, concedendo direcionamento a ele. Agora a DC poderia partir desse princípio, não sendo mais problema para seus roteiristas.
Temos também um elenco concreto: Billy Batson, Ebenezer e sua companheira, o Tigre Mágico, Shazam e o tutor de Billy. Temos os pais de Billy em flashbacks ou citações ao longo da história de origem.
Para completar, a fantasia dá uma gama enorme de possibilidades de novos e mais eficientes inimigos através das lendas de cada civilização, passada ou atual, da Terra.
Billy Batson está estabelecido. Na próxima parte dessa série de artigos, irei explorar o estabelecimento do Capitão Marvel dentro da proposta mostrada aqui.
Na próxima parte, as soluções – é minha opinião, vá! – para tornar novamente o Capitão Marvel querido por qualquer fã de quadrinhos, principalmente a molecada.
Eu acho que a DC nunca tentou levar a sério mesmo o personagem a não ser em mini-séries por trauma.
Na época da Fawcett o personagem era mais querido do que o Superman. E acho que a DC ainda pensa que se investir mesmo nele, isso irá apagar outros personagens da editora.
Por isso que o personagem é sempre retratado como palhaço, idiota, bobo e etc.
Espero que a DC deixe esse trauma de lado e trabalhe o personagem com dignidade nesse novo reboot.
Gosto do Capitão Marvel e gostaria que ele fosse visto com mais carinho espero poder ver um filme.
Ele merece uma chance de ter a história contada de uma forma mais séria.
Será que o pessoal tem medo que ele cresça um dia e fique tão boam como o supermam.
Sou fá dele desde menino quando via na tv o seriado dele junto com a poderosa Isis. valeu.
Cara você tirou duvidas gigantescas rsrs, serio mesmo!
Tenho 34 anos e me viciei em gibis da Marvel e DC aos 14 (graças a meu irmão, na época com 17 anos), até hoje cultivo o vicio, tanto que acabei de chegar do cinema, normalmente as mulheres vão ao cinema pra assistir filme de mulherzinha eu fui assistir meu adorável Homem de Ferro 3 ( confesso não ter saído muito satisfeita, apesar de ter dado boas gargalhadas). Mas voltando ao assunto… eu realmente não entendi esse lance do Capitão Marvel, ser quem era (Marvel) e ser da DC… me confundia ainda mais com ele sendo Shazam. Pelo que entendi ele passou a ser da DC depois de um processo judicial contra a Fawcett Comics, é isso?
Bem, nunca me interessei muito pelo herói, tanto quanto nunca me simpatizei com o Super-Homem, alias curto mais os heróis da Marvel, mas recentemente jogando Injustice (game muito bem feito por sinal) acabei me deparando com Shazam, fui atrás e parei aqui neste blog.