
Mikael Blomkvist é um jornalista sueco queixo-duro, sócio da pequena e combativa revista Millenium, e acaba de ser condenado a passar três meses no xadrez por difamar um megaempresário de honestidade duvidosa e ao mesmo tempo é contatado por um industrial idoso e isolado, que quer contratá-lo para descobrir o que aconteceu com sua sobrinha Harriet, desaparecida ainda adolescente, mais de vinte anos atrás. Mikael hesita bastante porque, oras, está cansado e desgastado, e desgastada fica também a Millenium; além disso ele tem lá suas desconfianças a respeito das intenções do seu candidato a contratador e mesmo da sanidade da família toda à qual pertence. Mas ele aceita e começa uma investigação que se torna cada vez mais enrolada, mais difícil.
Lisbeth Salander é uma moça bem esquisita: isoladona, antissocial, misteriosa. Ninguém sabe muito sobre ela na empresa de segurança onde trabalha, exceto seu patrão, Dragan Armanskij – ele só aceitou dar o emprego a ela porque um antigo conhecido, nomeado pela Justiça sueca como seu tutor, insistiu. Isso mesmo, Lisbeth foi considerada incapaz de se autogovernar e amargou uma parte da adolescência em uma clínica psiquiátrica infantil. Depois de ser levada para lares adotivos – e de fugir de todos – permitiu-se a contragosto que ela vivesse sob a supervisão permanente de um tutor.

Quem tem medo de Lisbeth Salander? Poster do segundo filme sueco, correspondente a "A menina que brincava com fogo"
Mikael e Lisbeth vão se cruzar em meio à investigação tardia do sumiço de Harriet Vanger e suas histórias não se separam ao longo dos três volumes que compõem a trilogia Millenium, obra póstuma do autor sueco Stieg Larsson: Os homens que não amavam as mulheres, A menina que brincava com fogo, A rainha do castelo do ar. Se você prestou atenção nos títulos pode ter a impressão de que os livros (que contam histórias de intrincadas e deliciosas investigações) giram em torno de situações envolvendo mulheres. Você está certo, e digo que além disso os três livros (sobretudo o segundo e o terceiro volumes) focalizam mais a figura interessantíssima de Lisbeth Salander e todos os mistérios e intermináveis complicações que brotam por onde ela passa. É claro que o que vou dizer agora é fortemente influenciado pelo fato de que eu devorei as aproximadamente 1500 páginas da trilogia em menos de um mês, e acabei impressionadíssima a leitura há menos de uma semana, mas atesto e dou fé: poucas vezes se viu (e se verá) uma personagem feminina tão forte quando Lisbeth.
Fico escrevendo os parágrafos e parando de tempos em tempos para pensar no que devo revelar a respeito da trama dos livros, no que posso dizer sem cometer o grande pecado do spoiler, e tudo me parece ao mesmo tempo interessante demais pra não ser contado e ao mesmo tempo surpreendente o suficiente para que o leitor mereça conhecer sozinho. Quando vocês lerem vão me entender. O que posso dizer é que a trilogia Millenium trata, de modo geral, de violência contra as mulheres em aspectos variados, e que coloca em questão o tempo todo não só o machismo de uma sociedade que a gente se acostumou a pensar que é mais igualitária que a nossa, mas o preconceito que viceja onde quer que haja seres humanos.

Erika e Mikael, na versão para cinema
Larsson tem o mérito de fazer a gente passar as mil e quinhentas e tantas páginas pensando sobre o que consideramos normal, o que a sociedade considera normal: para começar os sócios da Millenium são Mikael, Erika – casada e mantendo um relacionamento amoroso com Mikael há 20 anos com a concordância de seu marido, que ela sabe ter tendências bissexuais – e Christer, cuja homossexualidade é pública e notória. Lisbeth vai se revelando ao longo da história uma criatura menos convencional ainda: a vida dela é devidamente especulada, escafunchada, difamada, exposta, investigada e finalmente conhecida nos volumes 2 e 3.
Outra coisa importante: Larsson criou o incrível Super-Blomkvist provavelmente como um alter ego: criador e criatura de mesma profissão, ambos autores incríveis, de inteligência e sagacidade imensas, e a paixão de ambos pelo fazer jornalístico é muito clara e muito compreensível quando se lê a história. Mikael ama as mulheres e elas o amam, ah se amam (em um determinado momento comecei a me cansar de toda a série de conquistas amorosas dele. Pra mim esse é o senão da trilogia, que ganhou um ar meio canastrão à la filme-do-Supercine); Larsson recheia sua trama toda de mulheres tão livres, tão sensacionais e tão vitoriosas, cada uma a seu modo, que eu fico sem ter como negar a minha impressão de que a trilogia Millenium é uma obra de louvor ao gênero feminino.
Peninha que Stieg Larsson tenha morrido novo, em 2004, e não tenha tido tempo de ver o tamanho do sucesso (merecido) dos três livros. Todos eles foram adaptados para o cinema (em versão sueca), e eu tenho medo de assisti-los e borrar as imagens que formei na cabeça durante a leitura; David Fincher deve dirigir a adaptação hollywoodiana do primeiro livro, The Girl With The Dragon Tattoo. De qualquer forma a trilogia é boa demais para ser suplantada por imagens em movimento na tela.
Corre lá, não compra um volume só: pega a caixa toda duma vez, porque é mais compen$ador e duvido que você consiga ler só o primeiro volume e parar assim, sem mais. Boa leitura!


































Realmente os livros são muito bons apesar de estar lendo ainda o segundo mas eu estou bem entretido na história. Eu aconselho a todos lerem pois os livros são viciantes e se tem uma imersão muito grande, você se vê dentro da historia ao lado de Mikael e Lisbeth.
Boa leitura a todos.
Vi os filmes antes de ler os livros. Estou no terceiro e ele é tão rico, intrigante, bem articulado e fascinante que estou caçando as continuações nas locadoras e não consigo para rever. Lógico que os livros são melhores, mas os filmes forma tão feitos( os suecos) que não dá vontade de parar de saber mais sobre esta magnífica trilogia.