
São Paulo, Marginal Tietê, 8 horas da noite, quilômetros e mais quilômetros de congestionamento. Uma paisagem rotineira da grande metrópole.
Motoristas observam inquietos as luzes vermelhas em sua frente e as brancas em seus retrovisores, percorrem com a mão o topo de suas cabeças, acendem um cigarro, usam seus celulares para realizar comentários hostis sobre sua atual e estafante situação a alguém do outro lado distante da linha.
Observo passageiros de um veículo de transporte coletivo próximo, a expressão da dose diária de cansaço impressa no rosto de cada um é nítida. Mas entre estes alguns se distraem manuseando seus celulares ou mp3 players. Olhos fixos no trêmulo display no intento de sintonizar alguma estação de rádio ou na música de sua preferência. Olho para o painel de meu automóvel, e neste momento, também fujo do transito navegando por uma vasta lista de bandas, vídeos, fotos, podcast’s e afins em um iPod de 160GB. O celular de 8GB, o CD Player veicular que lê mídias ou contam com portas USB para acessar os demais arquivos em MP3, AAC, OGG, WMA etc. Ao passar pela 3ª década de vida, me lembro que isso nem sempre foi assim.
Lembro que, nos agora longínquos anos 80, Dee Snyder, atuando como “Frontman” da banda Twisted Sister, vociferava a plenos pulmões We´re Not Gonna Take It do outro lado da rua, originada das potentes caixas acústicas de um dos filhos dos novos moradores da casa em frente. Dia seguinte quem assumia os vocais, e todo som ambiente da rua (para desespero da vizinhança ), era Brian Johnson, o mais novo vocalista dos australianos AC/DC cantando o que viria a se tornar o clássico Back in Black. Depois, Gene Simmons, Paul Stanley e a banda Kiss, que naquele exato momento, soavam quase redundantes ao cantar I Love It Loud. Sons que provocam movimentos involuntários, instintivamente seguindo o compasso contagiante daqueles grandes clássicos.
Vizinhos a amigos me convidaram para ir a suas casas, onde conheci a máquina que fazia a rua reverberar com os estridentes sons de seus riffs e solos de guitarra ao lado de um arsenal de LP’s onde fragilmente era contida toda a citada potência sonora. LP’s, o ápice da tecnologia de outrora em armazenamento de áudio. Os aparelhos de som, conhecidos por 3 em 1 (Rádio, Toca-Discos e Toca-Fitas) recém chegados ao mercado, ocupavam o lugar das vitrolas.
Vitrolas! Para mim, o início de tudo, o grande reprodutor de mídias musicais da época. E mesmo assim, os mais velhos sempre diziam que em sua juventude, “aquilo” era um recurso não disponível na época ou uma comodidade de poucos!
Em trinta anos tudo mudou, e mudou exponencialmente, de modo nunca concebido pelas mentes daqueles tempos. Até mesmo em Hollywood a imaginação tinha certos limites referentes a isso. Cineastas e produtores de TV tinham em mente até mesmo carros voadores para o ano 2000, mas seus gadgets sonoros eram grandes, desajeitados e nem um pouco atrativos esteticamente.
Apesar de ter testemunhado momentos de grande evolução nas mídias de som, muito coisa aconteceu até o que temos em mãos hoje.
O Homem
Com certeza os primeiros recursos de armazenamento de áudio eram feitos de carne e osso. O Homem.
Especulam-se, segundo alguns estudos antropológicos, que a existência da música pode datar de até 70.000 anos atrás. Obviamente, apesar da existência de um padrão repetitivo nos som emitidos, nem de longe fazia parte de uma composição complexa, e tudo provavelmente era executado através sons vocais e batidas através dos membros do corpo ou pelo uso de algum instrumento rústico. Isso leva à conclusão definitiva da tese de que o homem foi o primeiro objeto capaz de armazenar informação musical em virtude do conhecimento.

Ilustração de músicos malteses
Milhares de anos se passaram e a maneira de fazer música, assim como tudo, se desenvolveu. Instrumentos musicais foram criados fazendo com que o homem pudesse exteriorizar seu conteúdo musical. Porém, as três categorias de instrumentos existentes até então, sopro, cordas e percussão, em nada poderiam ajudar sem a criatividade e o manuseio humano. Portanto, mesmo com a evolução dos veículos criados para ajudar na interação do ser humano com a música, o homem persistiu sendo o responsável de carregar adiante todo o conteúdo sonoro.
Evoluindo lentamente até o século 17, músicos de plantão a serviço da nobreza eram os responsáveis por entreter os senhores com seus acordes melodiosos ao longo dos tempos. Pois é, o mero ato de ouvir música nos séculos que se passaram não era um recurso de fácil acesso, mesmo sendo, como até hoje, a modalidade de entretenimento n.º 1 na escolha da grande maioria das pessoas.
A aristocracia dos séculos passados podia pagar por sessões em suas mansões ou até mesmo educar sua cria com aulas de música. O que definiria melhor o próprio homem como uma espécie de mídia, era o tratamento que lhe era destinado por seus senhorios ou contratantes, já que naquela época, não contavam com o glamour dado aos mesmos se comparado aos dias de hoje. Estes por sua vez não passavam de meros funcionários contratados para agradar a nobreza em sua corte durante festas e demais eventos.

Ludwig van Beethoven
Com o tempo, os músicos e sua arte passaram a ter melhores tratos (mas não de imediato, como qualquer artista) especialmente depois da chegada dos grandes, como Bach, Mozart ou Beethoven, sendo este último, um dos mais recorrentes em citações, cuja genialidade o permitiu compor suas maiores obras em estado de absoluta surdez. Mas o problema em foco persistia: não havia maneiras práticas ou baratas de levar a música para onde quer que fosse.
Mas isso mudou com o passar dos anos. No último século, na década de 80, o LP imperava, mesmo tendo sido criado anteriormente. Nos anos 90, o CD surgiu como a evolução. No novo milênio, MP3 players, carregavam nossas músicas em formato de arquivos de computador.
Origens e especulações da gravação sonora
O registro da primeira gravação sonora, oficialmente falando, se deu em tempos recentes (quando se comparado com a história da humanidade), mas existem lendas que no mínimo, despertam a curiosidade de qualquer um, dado às suas peculiaridades.
Uma destas lendas reza que em 2.000 A.C., um imperador chinês havia sido presenteado por um de seus servos, com uma caixa que quando aberta transmitia uma mensagem sonora.
Outra destas curiosidades envolve o escritor francês François Rebelai, que, 3.500 anos depois, teria registrado em uma de suas obras um dispositivo, que segundo ele, era capaz de congelar palavras.
Outro controverso acontecimento envolvia um compatriota do exemplo anterior, Hector Savinien Cyrano, conhecido também por Cyrano de Bergerac, que segundo seus escritos, mencionava uma caixa capaz de fazer com que se “lesse com os ouvidos”.

Fonoautógrafo
Os franceses ainda são destaques na próxima curiosidade. O pintor francês Leon Scott criou o Fonoautógrafo, em 1857, dispositivo capaz de gravar sons, mas que, frustradamente acrescentaria eu, não os reproduzia!
Pois é! A coisa toda só foi adiante muitos anos depois deste último exemplo com mais um francês! Este por sua vez se chamava Charles Cros, que 20 anos depois de Scott, elaborou e entregou para a academia francesa de ciências, o projeto chamado Paleophone, sistema capaz de gravar e enfim, reproduzir sons! Mas ainda, como já dito, era um projeto que ainda não se solidificara.
Os Primeiros Passos
O longínquo ano de 1877 foi quando se deu algum indício de que, com o auxilio da tecnologia enfim, o homem por fim poderia “carregar” o som para onde quisesse, mas como tudo, trilhou um árduo caminho.

Fonógrafo de Edison
Baseado nas idéias de Scott e Cross, o empresário e inventor Thomas Alva Edison, “O” Thomas Edison, isso mesmo, o cara que deu a “luz” a algumas das grandes idéias que perduram até hoje, aperfeiçoou o projeto que acabou resultando no nascimento do Fonógrafo, equipamento que consistia em um cilindro que era gravado e reproduzido através das vibrações captadas por uma espécie de lâmina com progressão axial que percorria os sulcos onde se encontravam as texturas responsáveis pela geração do som.
Tudo isso descrito acima era acionado manualmente por uma manivela. Logo depois passou por uma “melhoria” onde a folha de papel que cobria a superfície do cilindro foi substituída por uma folha de estanho. Resultado? Uma maravilhosa e vasta quantia de ruídos com uma leve impressão de vozes ao fundo reproduzidos durante 4 minutos e tudo isso em um tipo de mídia com a incrível durabilidade de no máximo quatro reproduções!
Um pouco mais tarde Crichster Bell, primo de Alexander Graham Bell, o pai das telecomunicações, obteve algumas melhorias em um projeto similar que utilizava material cerâmico no cilindro, uma prévia versão do gramofone, mas ainda nada muito significativo. Isso até a chegada do formato que por muito tempo reinaria sobre a face da terra.
“O” Disco

Criação de Berliner
O ano de 1.888 chegou, e com ele o canadense Emile Berliner, depois de ter imigrado para os EUA, substituiu os pesados e desajeitados cilindros para o formato presente em diversas mídias até hoje, o disco. Mas naquele ano, o disco, ainda em formato rústico, tinha os 33 cm de diâmetro junto a 6,4 cm de espessura.
Porém, apesar da criação de Berliner, o dinamarquês Valdemar Poulsen, trouxe uma grande novidade para a comunidade científica, mas não muito favorável ao entretenimento, conforme notado pela sua breve permanência.

O telegrafone de Poulsen
Tal sistema foi a provável inspiração para o futuro distante das fitas magnéticas e consistia em um cilindro envolto por uma espécie de arame, na época, o mesmo usado em pianos, que seria desenrolado de um carreto para um outro e em seu percurso passava por um eletroímã que o magnetizava segundo os padrões dos sons captados e reproduzidos ao passar por outro eletroímã que gerava uma indução magnéticas traduzidas por correntes elétricas que consequentemente eram transformadas no som original.
O premiado invento de Poulsen, porém só ofereceu competividade com os discos de Berliner até a chegada do século XX, quando o disco foi a opção preferencial.
Se você gostou deste artigo, não deixe de conferir a segunda parte!






































Caraca, muito bom o texto! *-*
Eu sou da Geração "Walkman FM // R$ 3,99".