
De cara decidi começar O jogo do exterminador lendo a introdução escrita pelo autor, o norteamericano Orson Scott Card. Terminei a leitura impaciente porque achei o autor cheio de uma empáfia e de um sentimento de adoração da própria genialidade que na época foram difíceis de suportar. “O sujeito se acha a última bolacha crocante do pacote”, pensei. Comecei o primeiro capítulo e, chocada com a crueldade com que o protagonista Ender se deparava já aos seis anos de idade, fechei o livro e enfiei na primeira prateleira que encontrei.
Depois dessa primeira tentativa de leitura traumática passaram-se vários meses, acho que foi um ano ou mais. E então eu comecei a ler o Jogos vorazes, terminei e enquanto fazia aquele meu processo de “digestão” do livro lembrei d’ O jogo do exterminador: ambas histórias trazem crianças ou jovens como elementos centrais de um contexto de violência extrema – física, psicológica – e vão descrevendo por quais percalços eles passam e como resolvem – ou não – seus problemas. O caso é que decidi dar uma segunda chance pra história do menino Ender.
E a situação desse menino é a seguinte: o planeta vive uma época de preparação para uma nova invasão dos abelhudos, raça alienígena devastadora que foi enfrentada pelos terráqueos outras duas vezes. Acordos militares regulam as relações turbulentas entre os países, que também vivem a um passo de se baterem novamente. A adoção de religião é desencorajada pelas autoridades, manifestações coletivas e pessoais de fé não são bem-vindas e as famílias não têm permissão para ter mais do que dois filhos. A não ser a família Wiggin, que teve Peter, Valentine e, mediante autorização, o caçula Ender, que é chamado pejorativamente de “O Terceiro”.
As três crianças são superdotadas e são monitoradas desde bem novinhas pelo governo em busca de habilidades que possam levá-las a treinamentos especiais de combate aos abelhudos. Peter e Val foram rejeitados – o primeiro por sua crueldade e a segunda pela grande capacidade de empatia. Restou Ender, que vai para a escola de combate e se junta a outras crianças brilhantes, e essa vida nova vai mexer muito na sua relação com a família, sobretudo com os irmãos mais velhos.
Aí vem o filé do livro, se vocês querem saber minha opinião: a trajetória de Ender dentro da escola, sua evolução lá dentro, as relações que constrói com os outros jovens alunos e com os instrutores, as descrições dos treinamentos em gravidade zero, as batalhas entre os exércitos de alunos, a estratégia; a pressão sobre o menino, que cresce com o peso de ser uma promessa de salvação do planeta (todo mundo já viu essa história uma, duas, três vezes antes, né?), o líder que todos esperaram e prepararam, tudo isso aliado ao isolamento, à insegurança e à sensação terrível de ser observado e monitorado o tempo todo, sem folga.

Orson Scott Card, autor de O Jogo do Exterminador
Outra coisinha de encher os olhos: a concepção tecnológica do autor, que publica O jogo do exterminador no meio dos anos 1980, antecipa o que hoje são atividades tão comuns do dia-a-dia das pessoas com quem convivemos: a comunicação por meio de “pranchetas” que podem enviar e transmitir mensagens, que permitem o compartilhamento de arquivos, a interatividade de jogos de computador em primeira pessoa, a troca de ideias por meio de fóruns mundiais online em que é possível inclusive criar e manipular identidades.
Você, leitor esperto, vai me dizer que “olha, minha filha, já havia experiências de transmissão de dados desde os anos 60, já se pensava em redes e…” e eu respondo que em 2010 me foi impossível pensar na sensacional imagem da prancheta sem fio transmitindo e recebendo mensagenzinhas oficiais e pessoais de alunos instrutores sem pensar em todos os gadgets que estão por aí deixando a gente de cabelo em pé e bolso vazio; que não teve como não considerar a dinâmica das comunicações, tal como Card a descreve, muito, muito, muito semelhante àquela com a qual lidamos diariamente.
O que recomendo a sério a quem for procurar pelo livro é: deixem o raio da introdução pro final, vocês já terão passado pela experiência da leitura, vão estar familiarizados com tudo o que o autor descreve e comenta e vão poder achar sim que o cara foi sensacional (o livro é parte de uma série, mas sinceramente acho difícil que outras obras do chamado “Enderverso” sejam tão precisas, envolventes e tão consistentes quanto O jogo do exterminador).
Mesmo o fato de ele colocar o peso da sobrevivência da espécie humana na Terra nas costas de um menininho que sofre o diabo desde muito novinho é uma coisa significativa: ele brinca com a associação constante entre a infância, a pureza, a inocência e o futuro, faz com que a gente se pergunte sobre quando e em quais circunstâncias um ser humano pode se tornar cruel, e a que isso pode servir. Ender (assim como Katniss, de Jogos vorazes) somos todos nós, nos equilibrando sob o peso das responsabilidades e das escolhas morais que encontramos pela vida.
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Débora
Legais seus comentários, mas sobre pranchetas que mandam mensagens e fazem mil e uma, é só reparar em Star Trek original. Kirk assina ordens numa prancheta, o tricorder é quase isso e faz de tudo, o intercomunicador é o celular e o teletransporte está sendo pesquisado a sério no momento. Tudo fruto de uma imaginação chamada Gene Roddenberry. Mais uma coisa: em apenas um episódio de Star Trek aparece o papel e ainda assim, como uma velharia. E mais: todos os comandos dos teclados da nova geração são em touchscreens…
[]s.