Reputação além dos números

Autoria: Stephan Martins

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Texto ori­gi­nal­mente publi­cado no Para­gons.

Em qual­quer jogo de RPG, espe­ci­al­mente quando se está numa cam­pa­nha (aven­tu­ras one-shot não têm tanta neces­si­dade), é impor­tan­tís­simo — eu diria até vital — que todas as ações dos joga­do­res criem con­sequên­cias. Um exem­plo qual­quer: dei­xar de sal­var um cida­dão tran­seunte para cau­sar mais dano no ini­migo, ou fazer ques­tão de salvá-lo, abrindo a guarda para o inimigo.

Quais as con­sequên­cias disso? O que dife­ren­cia o Bat­man do Homem-Aranha? E do Jus­ti­ceiro? Cada um com­bate o crime à sua maneira. Nem Bat­man ou o Ara­nha matam, mas ape­nas um deles usa o medo como arma, e o outro sofre com o mau uso de sua ima­gem na mídia. E como isso fun­ci­ona num grupo de joga­do­res? É de extrema impor­tân­cia lem­brar que em equi­pes como os X-Men, Vin­ga­do­res ou mesmo a Liga da Jus­tiça, os heróis que com­ba­tem em con­junto se adap­tam às manei­ras de agi­rem uns dos outros.

Mas eu quero que vocês pen­sem além disso. Não só as con­sequên­cias inter­nas pre­ci­sam ser cri­a­das, mas como no mundo ao seu redor. Como o grupo fun­ci­ona? Três pes­soas boas, e uma indi­fe­rente que ape­nas os segue? Ou é uma pes­soa boa no meio de outras com ati­tu­des dúbias? O que o povo comum, que nor­mal­mente é pro­te­gido, pensa disso?

Vejam o começo deste vídeo, reti­rado do filme “O Homem da Más­cara de Ferro”, de 1998:

O povo está faminto, e o Rei con­ti­nua a dar ali­men­tos podres a seus cida­dãos. Com isso, uma rebe­lião ame­aça estou­rar quando a popu­la­ção se vê aos por­tões do Rei. O gover­nante, indi­fe­rente, ordena que qual­quer um que se rebele seja aba­tido. Seus sol­da­dos nor­mais não sabem exa­ta­mente o que fazer, e assim que se pre­pa­ram para agir, chega o herói: D’Artagnan. Anti­ga­mente ele era ape­nas um garoto que que­ria fazer parte dos Três Mos­que­tei­ros. Ele con­se­gue, e passa o inferno junto de seus novos com­pa­nhei­ros. Durante o filme, o grupo se par­tiu. Ara­mis, Porthos e Arthos estão vivendo outras vidas, enquanto ape­nas D’Artagnan con­ti­nua a ser­vir a coroa.

Agora per­ce­bam como o povo reage à mera pre­sença dele. Bas­tou ape­nas apa­re­cer, e tanto sol­da­dos quanto cida­dãos para­ram suas ações por com­pleto, pois ele é um herói. Ele é conhe­cido, todos sabem que ele luta à favor do povo. Qual foi a última vez que um herói impe­diu um mas­sa­cre com sua mera pre­sença? Outrora, ape­nas ver D’Artagnan, Ara­mis, Arthos e Porthos jun­tos já era o sufi­ci­ente para estre­me­cer as per­nas de qual­quer grupo que se opusesse.

Pen­sem: eles ganha­ram isso. Ganha­ram esta repu­ta­ção depois de anos de luta. Pro­te­gendo seu país e a Coroa do Rei. Não é neces­sá­rio um sis­tema para dizer que são heróis locais, e que tal­vez sejam conhe­ci­dos em outras pro­vín­cias e paí­ses. É impor­tante que o povo adore seus heróis, tor­çam por eles. Hos­pe­dem eles, caso seja neces­sá­rio. Pre­fei­tos e outros gover­nan­tes podem dar con­forto ape­nas por um tra­ba­lho bem-feito, em vez de meras 100 peças de ouro. Vilas iso­la­das tal­vez os con­si­de­rem len­das, ou nunca ouvi­ram falar deles.

Alguém lem­bra de “Sete Homens e Um Des­tino”? O remake wes­tern de “Seven Samu­rai” (de Akira Kuro­sawa) é uma obra ensi­nando como nas­cem os heróis.

Con­tra­ta­dos por cida­dãos can­sa­dos de serem extor­qui­dos por um vilão, eles estão pron­tos a dar o pouco que têm por pro­te­ção. Com isso, um grupo de heróis surge de uma forma ines­pe­rada. E isso traz con­sequên­cias para eles.

O con­trá­rio tam­bém serve. Se forem anti heróis, podem ser visto pelos gover­nan­tes como um “mal neces­sá­rio”, ou ape­nas como bons sol­da­dos e mer­ce­ná­rios. O povo pode não adorá-los, mas não irão odiá-los. Ponto extre­ma­mente impor­tante, caso o grupo seja de vilões: serem odi­a­dos não é o sufi­ci­ente. Sim­ples­mente não é. Qual foi a última vez que você viu pes­soas nor­mais enfren­tando gran­des vilões? Heróis sur­gem das exces­sões que isso causa, mas os outros pre­ci­sam sen­tir medo. Ima­gi­nem um grupo de joga­do­res evil, que está indo tomar um reino à força. Se o Rei não os conhece, pode subestimá-los. Se conhece, pode se sen­tir ame­a­çado. Se o Rei está com medo, que dirá dos mili­ta­res e da população?

Agora lhes per­gunto: quem pre­cisa de núme­ros de reputação?

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