Projeto Orion: explosões nucleares e a conquista de Marte

Autoria: Leandro Arkanun

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Lem­bro até hoje da época em que eu era só mais um pir­ra­lhi­nho que gos­ta­ria de ser astro­nauta entre tan­tos que que­riam ser joga­do­res de futebol.

O mais legal, no entanto, é que meus pais nunca foram con­tra o meu desejo infan­til. Muito pelo con­trá­rio, além dos clás­si­cos blo­cos de Lego para ficar mon­tando algu­mas espa­ço­na­ves, sem­pre que pos­sí­vel eu ganhava algum outro brin­quedo, livro ou filme rela­ci­o­na­dos ao espaço e seus mistérios.

E vai ver que, jus­ta­mente por isso, eu cresci assim, um nerd feliz e vici­ado em assun­tos que dizem res­peito à “fron­teira final”, aos extra­ter­res­tres, às teo­rias cons­pi­ra­tó­rias e, por que não dizer, ao desconhecido…

Agora, mudando um pouco de assunto e dei­xando a nos­tal­gia de lado, não há como negar que a Guerra Fria, além de divi­dir o mundo em duas potên­cias, tam­bém foi um divi­sor de águas na his­tó­ria da huma­ni­dade. De um lado estava os Esta­dos Uni­dos e, do outro, a União Sovié­tica, duas nações extre­ma­mente pode­ro­sas fazendo uma guerra psi­co­ló­gica, uma coisa de “cão que ladra e nunca morde”.

A ten­são era imensa e assim per­ma­ne­ceu desde o final da década de 40 até o iní­cio da década de 90. Mas, como eu não quero ficar dando nenhuma aula de his­tó­ria aqui no Ner­drops — até por­que vocês não mere­cem isso -, vamos direto ao assunto: o Pro­jeto Orion.

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Fre­e­man Dyson

Tudo come­çou no ano de 1958, nos Esta­dos Uni­dos, quando o então enge­nheiro Fre­e­man Dyson, resol­veu con­du­zir um pro­jeto (que nunca saiu do papel) de uma nave espa­cial que fun­ci­o­na­ria à base de pul­sos nucle­a­res, ideia pro­posta em 1947 por um mate­má­tico que par­ti­ci­pou do Pro­jeto Manhat­tan, cha­mado Sta­nis­law Ulam.

Isso quer dizer que a ideia de Dyson, base­ado em Ulam, con­sis­tia em um método de pro­pul­são que uti­li­za­ria a ener­gia das explo­sões de diver­sas bom­bas atô­mi­cas, deto­na­das na parte de trás da espa­ço­nave, pro­du­zindo uma velo­ci­dade muito, mas muito alta, “empur­rando” a nave para cima.

De acordo com o enge­nheiro, seu pro­jeto era uma abor­da­gem muito melhor para se alcan­çar o espaço se com­pa­rado aos tra­di­ci­o­nais fogue­tes quí­mi­cos que, além de serem mais len­tos e caros demais, sem­pre colo­cam peque­nas car­gas no espaço.

Vale lem­brar aqui que as espa­ço­na­ves do Pro­jeto Orion teriam que ser extre­ma­mente maci­ças. Só por ques­tão de escla­re­ci­mento, os fogue­tes que todos conhe­ce­mos, ape­sar de bem resis­ten­tes, são pro­je­ta­dos com ligas leves para terem o mínimo de massa pos­sí­vel. Mas, no caso dos fogue­tes do Pro­jeto Orion, quanto mais massa, melhor seria para que as naves pudes­sem lidar com os impul­sos e impac­tos nucleares.

Ok, e como seria o fun­ci­o­na­mento do projeto?

A ideia de Dyson era cons­truir uma nave espa­cial de dez mil tone­la­das que pudesse alcan­çar a órbita da Terra atra­vés das explo­sões das bom­bas nucle­a­res de 0,1 qui­lon­tons, que seriam eje­ta­das a cada segundo (1:1) até que a nave pudesse come­çar a ace­le­ra­ção. Logo depois, bom­bas de 20 qui­lo­tons come­ça­riam a explo­dir a cada vinte segun­dos (1:20), levan­tando a espa­ço­nave e levando-a para o espaço.

De acordo com os cál­cu­los do enge­nheiro, seriam neces­sá­rias duas mil uni­da­des de pulso (ou seja, explo­sões) para que a velo­ci­dade de escape da Terra fosse atingida.

No entanto, os pla­nos de Dyson não aca­ba­vam por aí. O enge­nheiro suge­riu, tam­bém, uma ver­são inte­res­te­lar de uma nave com 40 milhões de tone­la­das, impul­si­o­nada pela força de dez milhões de bom­bas atô­mi­cas, que, de acordo com ele, seria pos­sí­vel che­gar à Lua, Marte e Júpiter.

Obvi­a­mente, como tudo não saiu do papel, o Pro­jeto Orion nunca sequer pen­sou em che­gar ao espaço, mas um pro­tó­tipo de tama­nho redu­zido foi feito e os enge­nhei­ros cons­ta­ta­ram que as con­di­ções den­tro da nave seriam pra­ti­ca­mente insu­por­tá­veis para qual­quer tri­pu­lante, tudo devido aos impac­tos das explo­sões e aos níveis de radiação.

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Expe­ri­ên­cias rea­li­za­das com um mini pro­tó­tipo para a simu­la­ção das explosões

Aqui, só por ques­tão de curi­o­si­dade, vale lem­brar que alguns tes­tes reais de pro­pul­são nuclear já acon­te­ce­ram, e as infor­ma­ções dizem que a deto­na­ção con­se­guiu lan­çar uma placa de aço de 900 kg a seis vezes a velo­ci­dade de escape da Terra. O teste, rea­li­zado durante a Ope­ra­ção Plumb­bob (a maior e mais longa série de tes­tes de armas nucle­a­res nos Esta­dos Uni­dos, ocor­rida em 1957, no deserto de Nevada), foi supos­ta­mente uti­li­zado como parte da jus­ti­fi­ca­tiva téc­nica para dar con­ti­nui­dade ao Pro­jeto Orion.

Absurdo? Depende do ponto de vista, já que deve­mos lem­brar que esta­mos falando da época da Guerra Fria, em que pla­nos, teo­rias e pro­je­tos eram desen­vol­vi­dos aos mon­tes, não impor­tando a sua grandeza.

Con­tudo, após a cri­a­ção da NASA, em 1958, boa parte do governo norte-americano não que­ria atrair nenhum tipo de crí­tica pública por causa da deto­na­ção de bom­bas nucle­a­res, então resol­ve­ram cor­tar o finan­ci­a­mento do Pro­jeto Orion. Com o corte, ape­nas a Força Aérea dos Esta­dos Uni­dos con­ti­nuou libe­rando recur­sos (muito limi­ta­dos) para a con­ti­nu­a­ção dos estu­dos e experimentos.

Além disso, em 1963 foi assi­nado um tra­tado inter­na­ci­o­nal entre Esta­dos Uni­dos, União Sovié­tica e Grã-Bretanha, que proi­bia os tes­tes nucle­a­res na atmos­fera. Ou seja, o Pro­jeto Orion tornou-se ile­gal pelas leis internacionais.

Sendo assim, após todos os pro­ble­mas, sete anos de dura­ção e onze milhões de dóla­res gas­tos, a NASA e a Força Aérea anun­ci­a­ram publi­ca­mente o can­ce­la­mento do pro­jeto em 1965.

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Ren­de­ri­za­ção da espa­ço­nave dei­xando a atmosfera

Porém, ape­sar de ter can­ce­lado o pro­jeto, a agên­cia espa­cial ainda man­tém um grupo dedi­cado a pre­ser­var todo o know-how acu­mu­lado, caso tal conhe­ci­mento venha a ser neces­sá­rio nova­mente. E, como se não bas­tasse, a NASA tam­bém aca­bou com­prando apro­xi­ma­da­mente 1700 pági­nas de docu­men­ta­ção que não pos­suía sobre o Pro­jeto Orion.

O tal “venha a ser neces­sá­rio nova­mente”, é por­que dizem que, se de repente um asteróide/meteoro gigante for des­co­berto em nossa dire­ção e a coli­são for ine­vi­tá­vel (2012, oi?), a única tec­no­lo­gia conhe­cida, capaz de enviar uma grande massa além da órbita da Terra, é o uso da pro­pul­são nuclear. Entenderam?

E agora, mais de 40 anos depois, a NASA está desen­vol­vendo um novo pro­jeto cha­mado Cons­tel­la­tion, cujo nome da nave é — adivinhem! — Orion.

No entanto, dizem não ter nada a ver com o Pro­jeto Orion de Fre­e­man Dyson, mas, segundo Don Pear­son, dire­tor de cons­tru­ção do pro­grama PORT (Teste de Recu­pe­ra­ção Pós-Pouso), os obje­ti­vos são os mes­mos: che­gar à Lua e a Marte.

“Não temos pala­vras para expres­sar nosso orgu­lho. A cons­tru­ção e os tes­tes da Orion irão demons­trar à Amé­rica que fomos muito além dos ôni­bus espa­ci­ais. A Orion é de uma outra gera­ção de naves, e nós a esta­mos cons­truindo por­que que­re­mos mesmo che­gar em Marte”, decla­rou Pearson.

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A nova espa­ço­nave Orion

Os pla­nos atu­ais mos­tram que o Pro­jeto Cons­tel­la­tion che­gará para subs­ti­tuir os ôni­bus espa­ci­ais atu­ais, com “apo­sen­ta­do­ria” pre­vista para 2010. Porém, o cami­nho de apren­di­za­gem será bas­tante longo, já que uma mis­são com­pleta de ida e volta até Marte pode durar, pelo menos, três anos e meio.

“Nós não esta­mos tão con­fi­an­tes de que a tec­no­lo­gia humana atual con­siga durar três anos via­jando no espaço sem que as coi­sas que­brem, e é jus­ta­mente por isso que, antes, fare­mos diver­sas via­gens à Lua, que duram ape­nas três dias. E será aqui, nesse tempo, que os astro­nau­tas mon­ta­rão acam­pa­men­tos e pra­ti­ca­rão as ati­vi­da­des que farão em Marte”, fina­li­zou Pearson.

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Marte: des­tino da Orion em 2030

O obje­tivo da NASA é que até 2015 a nova Orion já esteja trans­por­tando astro­nau­tas até a Esta­ção Espa­cial Inter­na­ci­o­nal (ISS), e, segundo a agên­cia, a cáp­sula tam­bém será uti­li­zada como labo­ra­tó­rio de tes­tes antes que possa, defi­ni­ti­va­mente, rumar para a Lua em 2020, e Marte em 2030.

Não quero pare­cer uma pes­soa para­nóica, mas se pla­ne­ja­vam coi­sas desse tipo nas déca­das de 50 e 60, ima­gi­nem quan­tos pro­je­tos mis­te­ri­o­sos ainda cir­cu­lam por aí. E o pior: quan­tos des­ses pro­je­tos já devem estar em fase de exe­cu­ção e/ou tes­tes? E não, não estou falando só de coi­sas antigas…

Agora, só para fina­li­zar, vamos brin­car um pou­qui­nho com as teo­rias cons­pi­ra­tó­rias. Será que o obje­tivo real dos norte-americanos era mesmo o de criar uma espa­ço­nave? Ou tudo isso não pas­sou de uma des­culpa para um pos­sí­vel desen­vol­vi­mento de uma nova arma nuclear para ser colo­cada em órbita e inti­mi­dar ainda mais os soviéticos?

A ver­dade, meus caros, está lá fora, mas o pro­blema é que quase nin­guém irá saber dela.

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10 reações to “Projeto Orion: explosões nucleares e a conquista de Marte”

  1. Pedro Torres disse:

    o amuco já pen­sou que bom­bas ato­mi­cas tem radi­a­ção e pode­riam con­ta­mi­nar toda a area de lan­ça­mento?
    hum?

    • Leandro Ark disse:

      @Pedro Tor­res: Sim, e esse foi um dos moti­vos que fez com que o pro­jeto não saísse do papel. Além da cons­ta­ta­ção de que as con­di­ções den­tro da nave seriam pra­ti­ca­mente insu­por­tá­veis para qual­quer tri­pu­lante, seja pelo impacto das explo­sões, ou pela radi­a­ção emi­tida pelas bom­bas (assim como foi des­crito no texto).

      Abra­ços.

  2. Gabriel disse:

    Muito boa a idéia do mete­oro gigante…

    • Guizaum disse:

      Nego inventa cada coisa pra gas­tar dinheiro. Acho que falar de “mete­o­ros gigantes“é uma ótima des­culpa durante a guerra fria, ainda mais quando tem os ame­ri­ca­nos vindo “dos céus”.

      Enfim, acho que podiam ter usado ape­nas aquele papo Lua/marte ou explo­ra­ção espa­cial em sí.

      Ps: Muito legal esse texto, as ima­gens tbm. Para­béns Arka­nun! Agora o Fre­e­man Dyson é a CARA!!!! daquele empre­gado do Mr. Deeds — saquem o link http://www.twitpic.com/iqfcq

  3. Angela Hortencia Weber disse:

    O pior disso tudo é a situ­a­ção atual dos paí­ses e essas tran­sa­ções béli­cas que tem sido feitas.

    Real­ti­var um pro­jeto des­ses e por outro lado ver Vene­zu­ela enco­men­dando arma­men­tos e tan­ques da Rús­sia é bizarro.

    Bolí­via ALI com a Venezuela.

    Cuba naquele vai não vai.

    Colôm­bia acei­tando os EUA no ter­ri­tó­rio deles…

    Ah, e o Bra­sil com­prando 984759894 de caças da França para vigiar as fronteiras?

    Ten­tem ima­gi­nar daqui 10 anos.
    Pobre Amazô­nia, se ainda existir.

    • Jordan disse:

      [Cons­pi­ra­ção mode On]
      Tal­vez o plano seja lan­çar esse foguete na área amazô­nica, assim se livrando do “mete­oro” e do Acre ao mesmo tempo.
      Des­truíndo o lugar no pro­cesso eles pode­rão aco­ber­tar qual­quer coisa que ocor­reu lá.
      Com a flo­resta já devas­tada, não se “per­derá” a flo­resta na explosão.

  4. Fábio disse:

    Quanto tempo demo­ra­ria uma via­gem a Marte com essa nova tec­no­lo­gia? Gos­ta­ria muito de estar vivo para ver isso acontecer…

    • Leandro Ark disse:

      @Fábio: Então, cara… De acordo com as infor­ma­ções da NASA, as via­gens pra Marte estão pro­gra­ma­das pra 2030… Se até lá nada sair errado e o prazo for cum­prido como pro­me­te­ram (con­tando tam­bém o tempo de via­gem daqui até Marte), você teria que viver pelo menos mais uns 25 anos pra poder ver… :P

  5. Jordan disse:

    Texto muito bom, con­se­guiu ligar os pon­tos de uma maneira que se torna fácil per­ce­ber as liga­ções entre pas­sado, pre­sente e futuro em rela­ção à essa pes­quisa e as pos­sí­veis inten­ções dela.

  6. Carlão disse:

    Pra mim nada mais é do que um pro­jeto que visa impor­tar rapi­da­mente o Hélio 3 de Marte. Um ôni­bus espa­cial repleto de Hélio 3 é sufi­ci­ente para girar a eco­no­mia dos EUA por um ano (e sem petróleo).

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