Quando os games viram filmes
terça-feira, outubro 13th, 2009
Semanas atrás, eu fiz um artigo criticando a estratégia de algumas produtoras, quando um filme está para ser lançado, de criar um jogo qualquer para que seja divulgado ao mesmo tempo. Se por acaso perdeu essa coluna, dê uma olhada agora.
Mas e quando acontece o contrário? E quando os figurões de Holywood olham para um determinado game e pensam “hey, mesmo sem conhecer nada sobre este jogo, eu posso lucrar com um filme baseado nele!”
E é aí que vemos algumas obras eletrônicas terem uma mutação em filmes que, talvez muito de longe e no escuro, lembrem aquele game que jogamos.
Os exemplos são muitos. Hoje, já temos lançados mais de 50 filmes baseados em games, e outros 50 estão programados ou em fase de produção. Mas grande parte deles, ou melhor, quase todos são lembrados por serem péssimas adaptações de roteiros (que originalmente seriam até cinematográficos), perdendo-se os detalhes originais ou exagerarando em pontos desnecessários. Somente quero citar alguns exemplos, e começarei com a série Resident Evil.

George Romero e Jill Valentine, em Resident Evil 1
Resident Evil seria roteirizado e dirigido por ninguém menos que George Romero, simplesmente um dos melhores diretores de filmes com zumbis de todos os tempos (e que por sinal dirigiu um comercial de Resident Evil 2 de grande repercussão no Japão). Após finalizado o script, a Sony e a Capcom demitiram Romero, alegando que o filme iria se parecer muito com o game.
É, isso o que você leu tá certo. A Sony Pictures queria transformar o filme em uma versão mais “combate”, retirando todo o lado de suspense do jogo, perdendo “só” a sua característica principal. Só pra você ter uma idéia, Chris Redfield, Jill Valentine, Albert Wesker e Barry Burton estavam presentes no roteiro, que iria se basear muito no game original para o seu screenplay. Romero jogou o jogo na Capcom, gravou o gameplay, estudou as câmeras do jogo e baseou todo o seu roteiro nisso. Ia ser um filme perfeito.

Alice, a descarnada protagonista nos filmes de RE
Mas não foi o que vimos nas telonas. Se retirarmos a quase ausência de referências aos games, o filme é simplesmente um filme de zumbis, enquanto que Resident Evil (o jogo) seria um roteiro perfeito de suspense para se levar à tela, superior a vários filmes do gênero que estão sendo lançados atualmente.
Mas, ao invés disso, tivemos uma protagonista desconhecida, num local sem referências diretas à mansão do primeiro game, e o máximo que pudemos identificar foi o nome da Umbrella Corporation. E dê-se por satisfeito. E não, eu me recuso a comentar qualquer coisa que foi feita após esse filme, principalmente a parte em que a Alice (Milla Jovovich) é transformada numa “super soldado”.

Lara Croft e Angelina Jolie
Mas não para por aí. Tivemos também Lara Croft: Tomb Raider, que por si só já garantia um roteiro estilo “Indiana Jones de saia”, caso seguisse o jogo no qual foi baseado. A escalação da atriz Angelina Jolie não foi das piores, porém a atriz abusou da canastrice a ponto de receber uma indicação ao prêmio Framboesa de Ouro, o Oscar Bizarro de Holywood. Não se parecia com a atlética protagonista do game, e ao invés disso ficava fazendo charminho e não mostrava muito o lado arqueológico do jogo.

Street Fighter — o Filme
Street Fighter merece o título de um dos piores filmes já feitos pelo conjunto da obra: os personagens mais carismáticos da série, Ryu e Ken, relegados a papéis secundários; um Bison magro e sem assustar ninguém; um Guile sem o cabelão loiro que marcava o personagem; Cammy toda simpática; Chun-li repórter (e ela sempre foi policial); um Blanka magrelo feito na maquiagem quando a computação gráfica já rodava a plenos pulmões; um Dhalsim médico e com cabelo. Tudo isso recheando um enredo pífio com uma das representações de poderes mais absurdas que já vimos. Não existe UM HADOUKEN QUE SEJA NO FILME INTEIRO. No máximo, um soco que o Ryu dá e uma luz pisca. E eu ainda podia continuar por horas falando mal desse filme, mas não seria justo. Temos outras tosqueiras a lembrar.

Alone in the Dark: do mestre Uwe Boll
Temos também Alone in the Dark, filme baseado no jogo Alone in the Dark: The New Nightmare, que marcou o renascimento da série nos consoles mais atuais, depois de um vazio de 7 anos entre os jogos. O filme apresenta falhas no continuísmo do roteiro que chegam a ser gritantes, porém merece algum crédito por ter referências claras ao jogo no qual foi baseado (como por exemplo o protagonista ser o mesmo dos games, ou o fato de o roteiro ser realmente baseado em um dos jogos. Aprenderam, produtores de Resident Evil?)
E a lista vai longe. Silent Hill, Bloodrayne (misericórida!), Hitman, Postal, Far Cry, Max Payne e Mortal Kombat, todos já foram desgraçados nas telonas graças a roteiros incompetentes e adaptações mal feitas. Aliás, essa lista é tão extensa que o site Screwattack.com fez um Top 10 sobre “Piores filmes baseados em Games” e Resident Evil conseguiu ficar de fora!

Jake Gylenhall como Dastan no filme de Prince of Persia
Mas não é só isso, a programação dos estúdios contém novas vítimas, com estreia marcada para breve, num cinema perto de você! Estão na lista: Army of Two, Prince of Persia, Metal Gear Solid (esse deu um aperto no coração!), um novo Mortal Kombat (pra quê??), Gears of War e King of Fighters.
Sinceramente, não custa aos produtores, roteiristas e diretores JOGAREM O JOGO AO MENOS UMA VEZ! E também não custa às produtoras apresentarem o que foi proposto originalmente naqueles games, ao invés de somente largar a sua franquia nas mãos de outras pessoas que terão a liberdade de jogar o nome na lama.
As emoções propostas estão presentes nos jogos e assim que eles puserem as mãos para jogar vão saber o que fazer para transformar em filmes que os fãs irão gostar. Sigam o roteiro, não inventem, não acrescentem, não mudem nada sem saber qual a opinião dos fãs. E só desse jeito vocês irão agradar o público, e fazer um filme digno da representação dessas obras.

















