
Todo mundo conhece essa história: nos anos 90, a Sega e a Nintendo brigavam pau a pau pela hegemonia nos consoles, disputando lançamentos exclusivos, que agradavam seus fiéis consumidores e atazanava a vida dos que escolheram o outro sistema. Nessa época, os mascotes tinham um lugar garantido no hall de entrada das sedes destas corporações. Mario, do lado da Nintendo, e Sonic, do lado da Sega.
Valia tudo: games (lógico!), camisetas, brinquedos, action figures, quadrinhos, mangá (já que as duas empresas eram japonesas), entre outras bugigangas. Aquele encanador representava todo um império nipônico, enquanto que o porco espinho azul era o rebelde que desafiava a hegemonia do sistema.
Pouca gente sabe, mas o nome Mario surgiu como uma homenagem ao senhorio do escritório da Nintendo no Japão, que se chamava Mario Segalli. O nome original do personagem era Jumpman, devido ao fato de que, em seu primeiro jogo, ele pulava barris, pulava de nível em nível até chegar no Donkey Kong, que havia seqüestrado a sua namorada Pauline, e pulava na cabeça dele. Para o personagem ganhar o nome de “Jumpman” foi um pulo (!). Ok, seguindo em frente…
Outro detalhe, originalmente ele era designado como um carpinteiro, e não encanador. A mudança na profissão se deu quando foi elaborada uma história mais profunda sobre o personagem, acrescentou-se o seu irmão Luigi, e eles se mudaram para o Brooklin. Um belo dia, ao tentar consertar o encanamento de seu apartamento, eles foram sugados para o Reino dos Cogumelos, conheceram os outros personagens do lado de lá, e ganharam permissão para ir e voltar do Reino para o Brooklin quando quisessem.
Com Sonic, a coisa foi um pouco diferente. Ele não foi aclamado com o tempo, mas sim criado para ser “O” mascote da Sega. Anterior a ele, havia o Alex Kidd, mas esse não emplacou muito no gosto dos jogadores da época. Deve ser a razão desproporcional entre sua cabeça e sua mão.
Sonic foi criado sob o pedido da Sega para o time AM-8 (atual Sonic Team) que criasse um jogo que superasse a marca de um milhão de cópias. Simples assim. Várias concepções foram criadas, inclusive com o Sonic sendo um cachorro, um tatu (!) e uma hiena (!!). O escolhido foi um porco espinho, mas no Japão ele é tratado como sendo um ouriço.
A recepção ao Sonic foi muito boa, e a promessa do “1 milhão de jogos vendidos” foi cumprida. Sonic era, assim como o Mário, um personagem cativante, e melhor ainda, com um jogo envolvente e viciante. A Sega tinha o seu mascote.
E o tempo passou. Variações de jogos usando estes dois personagens foram criados, mas indiscutivelmente souberam usar o Mario melhor do que o Sonic. Mario Kart, Maior Party, Mario Golf, Mario Paint, praticamente “Mario Qualquer-Coisa” poderia ser criado. Enquanto isso insistiam na idéia de que o Sonic deveria manter a sua linha “para frente e avante”. Isso fez com que os jogadores tivessem sempre jogos de corrida atrelados ao Sonic, criando uma associação quase obrigatória, enquanto Mario era mais livre para aparecer em qualquer jogo.
Outro fator importante foi uma mudança no próprio Sonic. Nos seus primeiros jogos, ele tinha um look enfezado, querendo correr, reclamando quando o jogador demorava em tomar alguma ação no controle. Dava um aspecto mais radical, rebelde pro porco espinho, e isso agradava às crianças e adolescentes que jogavam. Até que deram a possibilidade do Sonic falar. Boa parte do carisma caiu por terra, já que ele saiu da linha “pouco papo, muita ação”.
Além disso, a Sega exagerou em dizer que Sonic era rápido. Nos primeiros jogos, você tinha a perfeita noção de “aceleração”. Primeiro anda, depois corre, depois voa, e não para até o fim da fase. Nos últimos jogos que joguei, como o Sonic Heroes do PS2, mal apertava o direcional, e o jogo já estava com o cenário borrado passando em velocidade-luz. Isso até que foi corrigido nos jogos mais recentes, mas o estrago de décadas já estava feito. Até a Sega se render e largar o páreo.
Sonic então virou um mascote sem estandarte, um mero personagem que ainda tem forças para lançar um jogo com o seu nome, apenas anda sem um jogo à altura que represente a sua imagem. Resta a esperança de que a Sonic Team (que virou uma filial da Sega Software) recupere os “bons modos”, e faça um jogo simples, divertido, e sem frescuras. É só isso o que os fãs querem.
Enquanto isso, Mario continua firme. Mais de 17 atuações diferentes em mais de uma centena de jogos (como super herói, médico, pintor, cozinheiro, juiz de boxe, dançarino, lutador e piloto),
presente em camisetas, canecas, pen drives, livros, revistas, bolo de aniversário, bolo de casamento e em quase tudo que possa ser vendido.
É uma reputação admirável, até porque hoje não existe mais esse conceito de empresa e mascote. Com a terceirização da produção dos jogos, inúmeros personagens foram criados, e essa necessidade se difundiu.
E o Mário conseguiu se manter como o rei da Nintendo por mais de 20 anos.